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Abia

Vencedor de Melhor Filme no V Cine Fest Petrobras Brasil, Nova York 2007
V Cine Fest Petrobras Brasil

Diretores brasileiros concluem obras pessoais

Karim Aïnouz: Um Retorno à Memória Afetiva

Pela força presente em seu primeiro longa, é inevitável trabalhar com comparações. Mas o cearense de Fortaleza Karim Aïnouz é o primeiro a ressaltar as diferenças entre Madame Satã e seu novo O Céu de Suely. O primeiro tinha uma câmera urgente, que sufoca, e a fotografia registrava o suor transbordante do calor úmido do Rio de Janeiro. Já seu segundo longa é mais silencioso, contemplativo e seco. A Hermila que protagoniza a trama perde-se nos amplos cenários do Ceará, enquanto que Madame Satã dominava e transbordava o cortiço e o palco em que existia. Aïnouz revela que a personagem deveria se chamar apenas Suely, mas ao escalar a atriz Hermila Guedes, ele percebeu que uma mudança de nome seria mais pertinente para essa figura que lhe nasceu na imaginação depois de ler uma notícia sobre uma mulher que rifou uma noite de sexo.

Esse longa é um retorno à casa, ao Estado em que nasceu, a um lar dominado por mulheres e marcado pela ausência masculina. O cineasta afirma que aqui o corpo é mais importante do que a trama, já que “o filme é destramado”. A ação é mais física do que dramática, o corpo do ator está em close, mesmo ele sendo uma formiga no vasto sertão. O espaço se torna o maior antagonista do corpo. E como reflexo da memória familiar e afetiva, todas as mulheres da trama são fortes, nunca amargas em seu abandono. Elas existem numa ambientação que foge – graças à ótima fotografia de Walter Carvalho e de seu filho Lula – da luz branca e chapada típica da região. Aïnouz inspirou-se nas fotografias do americano William Eggleston para atingir o registro ideal de seu drama. Pela sua equilibrada economia de recursos, Aïnouz afirma que há no filme vários elogios ao cinema, como toda a seqüência final, com a presença do personagem atávico interpretado por João Miguel (Cinema, Aspirinas e Urubus), o único homem recorrente na história. E, depois de O Céu de Suely, o diretor revela que quer tanto fazer um filme alegre e eufórico, na linha de Embalos de Sábado à Noite, como também discutir a relação de classes pelo prisma de um segurança particular. Mas como ele também sempre aproveita ao máximo o aqui e o agora, Karim ainda está na onda de Suely, depois da resposta calorosa e latina que recebeu no Festival de Veneza, da reação mais intelectual e anglo-saxã no Festival de Toronto e das exibições na Mostra antes de sua estréia comercial, no dia 17 de novembro. Aí então, a Hermila que vira Suely será de domínio público.

Ângela Patrícia Reiniger: Três Brasileiros
Três irmãos, três vidas, três histórias de importância política e cultural para o país: Henfil (Henrique), Betinho (Herbert) e Chico Mário (Francisco Mário), os irmãos Souza, são objeto do documentário Três Irmãos de Sangue, dirigido e co-roteirizado por Ângela Patrícia Reiniger. Ela afirma que a maior dificuldade foi selecionar o material final entre as 100 horas de gravação. O documentário tem 104 minutos, mas consegue abordar da infância à morte dos três irmãos, hemofílicos e vítimas da Aids por transfusão de sangue. A hemofilia exige transfusões constantes, e os irmãos foram vítimas da falta de controle dos bancos de sangue. Ângela acha importante denunciar o fato, pois recentemente houve novo caso de contaminação no Rio de Janeiro. As pessoas precisam ficar atentas.

Henfil, cartunista, Betinho, sociólogo, e Chico Mário, músico, tiveram intensa participação sócio-política, para além de suas carreiras profissionais. Para recuperar essa participação, Ângela recorreu aos arquivos de emissoras de televisão, como a Rede Globo, a TVE carioca e TV Cultura paulistana. Betinho, que foi exilado e se tornou conhecido do grande público pela letra da música O Bêbado e a Equilibrista, de João Bosco e Aldir Blanc (“Brasil, que sonha com a volta do irmão do Henfil”), é visto quando retorna do exílio numa cena de telejornal da Globo, que Ângela precisou restaurar para incluir no filme. Também foi restaurado um áudio de Betinho, enviado do exílio para sua mãe, dona Maria, no qual relata a saudade do filho, seu novo casamento e seu cotidiano.

Ângela explica que conheceu Marcos de Souza, filho de Chico Mário, ao entrevistá-lo para o programa Mãe & Cia, que fazia para o GNT, canal de TV a cabo. Ele queria fazer o filme e levou o projeto para Ângela, que adorou a idéia. Entre a captação de recursos e a finalização do filme se passaram quatro anos, durante os quais ela aprofundou as pesquisas. Foram feitas filmagens no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Minas Gerais, entre outros locais pelos quais os irmãos passaram. Conseguiu-se um rico material. As imagens são pontuadas pela música de Chico Mário, escolhida por Ângela e Marcos de Souza, que fez a direção musical do documentário. Mas a diretora ressalta que a escolha se deu pela emoção provocada pelas cenas, por isso elas resultaram tão significativas. Ângela destaca ainda que o papel do cineasta é também o de resgatar historicamente personalidades como os três irmãos Souza. Ela revela ainda que achava que o público mais jovem não se interessaria pelo tema, por não ter vivido o período, mas teve excelente recepção também por parte deles.

A distribuição do filme ainda não está acertada, mas Ângela revela que doará cinco mil cópias, de uma versão com sessenta minutos de duração, para escolas e instituições. Também a renda obtida, quando da exibição do filme, será doada para a ABIA (Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids). Durante sua presença na 30ª Mostra, Ângela diz que foi procurada pela ONG Pela Vida, que cuida de vítimas da Aids, para que seu filme seja apresentado na abertura do festival, que a entidade promoverá em 2007.

Cao Hamburger: Um Time Bem Afinado
Criador da série de TV e do longa Castelo Rá-Tim-Bum, Cao Hamburger recebeu o Jornal da Mostra na quarta-feira, dia 25, nas dependências do hotel Crowne Plaza, em São Paulo, para um bate-papo sobre o filme O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, sua segunda experiência na direção de longas-metragens. O filme faz um retrato da geração que viveu a ditadura militar ainda na infância e se passa no ano de 1970. O protagonista é Mauro, um garoto mineiro de doze anos que é deixado na casa do avô, no bairro do Bom Retiro, em São Paulo, enquanto seus pais, militantes políticos de esquerda, “saem de férias” para evitar as perseguições políticas. Hamburger considera marcante o período de transição entre a infância e adolescência. “Os adultos têm sempre um grande interesse em visitar essa fase da vida”, afirma. Para o diretor, contar a história durante essa fase sombria, mas também de efervescência cultural, pareceu oportuno. “Desde o começo, decidi que não seria um filme sobre a ditadura. Eu queria usar esse pano de fundo em favor da minha história.”

Hamburger revelou também que seu objetivo era fazer um filme que desse ao público espaço para reflexão, para o afloramento de sentimentos individuais. “Certa vez, ouvi o Wim Wenders dizer que seus filmes preferidos são aqueles em que encontra espaço entre os fotogramas. Nunca tirei essas palavras de minha cabeça e tentei exercitar isso em meu filme”, diz. Naturalmente, a história de um menino que se vê separado dos pais, perseguidos pela ditadura militar, seria um prato cheio para o melodrama. Segundo o diretor, uma de suas preocupações durante as filmagens foi justamente evitar esse apêlo fácil. “Fiquei atento a isso durante todas as fases da produção. Filmei e, algumas vezes, refilmei para ter certeza de que não cairia nessa armadilha”, diz.

O diretor fez questão de ressaltar a importância da equipe no resultado do filme. “Um filme, nas qualidades e nos defeitos, é uma criação conjunta”, diz. Por pensar dessa forma, Hamburger se disse bastante rigoroso no momento de montar sua equipe. “Eu não escolho os profissionais que vão trabalhar comigo avaliando apenas a qualidade técnica e o currículo. Dou muito valor à empatia.” Prestes a rodar, ele ficou bastante animado ao ver que toda a equipe estava alinhada com a proposta inicial. “Eu até brinco nos comparando à seleção de 70, que para muitos foi a melhor seleção de todos os tempos. Nossa equipe de produção não é a melhor. Não somos melhores que ninguém, mas sem dúvida jogamos bem afinados”, conclui.
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